Até à Eternidade

Nesta praia deserta
onde a calma impera
e não se ouve das gentes a fera,
só da onda o constante
tombar anunciador,
revi-te um momento
e o ar vestiu-se de mais cor
e o tempo com mais tempo!

Até ao eterno momento
singelo sentimento!


18-06-2005

A Flor

Em poesia sonhei um jardim
de flores as mais bizarras...
há uma que contudo
merece as mais bonitas jarras.

Um poema não lhe diz tudo
e o refrão guardo para mim!


18-06-2005

Sortilégio

Veio de ti o sortilégio
de ter de amar o proíbido
dias e noites sem sentido
preso neste amor egrégio.

Veio de ti a feitiçaria
mitigar o meu desejo edace
e reduzir a uma ninharia
este meu ser de lovelace.

Veio de ti a orientação,
o traçar de um rumo certo
desde o beco à constelação.

Deixei o navegar incerto
na embriaguez e no desvario
de saltimbanco d'amores, frio.


18-06-2005

"Atenciosidade"

Vem daquela praia distante
se a memória me não atraiçoa
uma voz sofrida que ecoa,
um rumor plangente e gritante;
uma costa que se esvai exangue
tal se esgota o coração cansado
no rastro do amor alado
às nuvens, aos céus, ao firmamento,
onde o sossego tenha lugar
e o atencioso faça perfumar
a flor da paixão
linimento
ao amor terreno inconstante.


17-06-2005

Maramar

Mar mistério, amor perdão,
à bolina nas asas do albatroz
ensaio um poema a sós
extasiado no milagre do teu viver.
Não acredito, nem quero crer
que me deste est'outra voz
para te exaltar a amplidão!

...

Nesta praia deslumbrante
onde alienígenas se passeiam
semi nus,
bem vistos, à contra luz,
quantos diriam:
"amo com convicção!"

Cinismo cruel
que alicerça o fel.



17-06-2005

A Música e a Poesia

A música e a poesia
a alma e o enlevo
que diferente o mundo seria
sem esta dualidade de relevo.

A música e a poesia
em triste ou alegre cantar
a estrela da vida alumia
e o luto ajuda a passar.


17-06-2005

Velha História

Contou-me a musa já morta
dos rios que correm ao mar
e das barragens a estrangular
a liberdade que entrecorta.

Contou-me também do vestir
dos vales e gargantas, das margens
que na roda da época mudam as roupagens;
condicionado não muda o povo a pedir.

Muda do rio o intento do pescador
fecham-se as comportas ao agricultor
a abrir caminho ao recreio em navio.

Passa impante o senhor velejador
necrófago popular este novo condor
e o povo fica a ver arder o pavio!


17-06-2005

Pousada Da Leba

Zé Luis

Kissonde te queres
kissonde te deixarei
kissonde entre as mulheres
defensor da grei.

No quarto doze
te queres hospedado
um andar é dose
para ser locado
no mata-bicho a dose
será ao teu cuidado
e da ceia a dosa
acompanhará o fado.

Tens o quarto à disposição
virado a nascente
do sol o fraco clarão
te acordará docemente.

A Pousada da Leba
agradece a visita
na próxima dá e leva
um cartão à primita.


17-06-2005

Árvore da Vida

Foi à tua sombra que comecei o meu caminho,
foi no teu frondoso fresco que me recobrei
e protagonista doutras alegrias que hoje sei,
como a ave migratória no regresso ao ninho.

Foi o teu tronco um esteio singular,
a tua copa à chuva serviu de protecção
e do sol me protegeu da sua forte acção
como as asas à ave lhe enfeitam o planar.

Já era parte de ti muito antes de nascer
os teu sonhos completavam-se no meu viver
e na cadência do teu rumo fui crescendo.

Até ao dia em que à memória me prendo
e aí, dia a dia, saudoso te vou visitar
para à tua sombra outros sonhos reanimar.


17-06-2005

A Meus Pais

Este vazio que sinto e atormenta
de obscura e transparente equidade
equilibrio de dor e saudade
rio que a tristeza alimenta;

Este nada etéreo metamorfósico
que meu sorriso a custo transfigura
não seria tão profundo se agnóstico
em vez de fé cristã e sua cultura.

Esse vazio que sufoca e é nada
seiva de amor que se descobre lenhina
ampara a dor ao crente confinada.

Procurar-me n'Ele, isso me anima
mas o vazio deixado enche o nada
em que me tenho de amor à dupla amada.


17-06-2005

Vede...

Vede caminho da esperança
como os meus amigos
enfeitiçados, não são contidos
e dizem coisas sem lembrança.

Vede como a colegialidade
obceca a razão
e confunde o coração
na manifestação da amizade.

Vede Musas ditosas
da Serra da Leba
e Ninfas da minha gleba
como vos têm amorosas.

Vede como me confundem
fazendo-me acreditar
que dizendo do meu amar
também eles se infundem.

Oh!, Musas,
que belo é escrever
para alguém ler!


17-06-2005

Cascata da Huíla

É de ti ó Cascata da Huíla que mais me lembro,
do teu ventre, desse lago de águas transparentes e frescas,
dos banhos, dos piqueniques, das raparigas em Setembro,
dos recantos abrigados, dos passeios românticos, das festas.

A estrada de terra e areia com o combro ao meio
que levava os carros como se já soubessem o caminho,
a namorada enfeitiçada que finge não saber ao que veio
e o rapaz dengoso e matreiro à espera do miminho.

Ah!, Cascata, se as tuas águas voltassem a cantar para mim,
se as árvores e os carreiros voltassem a guiar os meus passos,
a lua do meu destino voltaria a sorrir, enfim...

Os encontros amorosos que foram só beijos e abraços
teriam agora outro fervor, outra acha do meu coração
amorativo que te ensinaria, ó Cascata, outra canção!


16-06-2005

Casa Que Fala

Caminho por vereda estreita
tropeçando em raízes
esvoaçando esta maleita
em voo de perdizes.

Amparado por uma bengala
subo o íngreme e escorregadio
acesso à casa que fala
da formosa Ninfa do Rio.

Cansado, tremulo e fremente,
guiado pela lucina luscente
bato à porta e anuncio:

Ó formosa Ninfa do Rio
acode de amor este crente
que traz o coração igniscente.


16-06-2005

Fossem

Fossem os teus olhos os meus olhos
e a tua boca a boca que beijo
e verias amor, como te vejo
e o quanto luto entre escolhos.

Fossem os teus lábios os meus lábios
e embora só de amor falassem
e em teu corpo se sonhassem
beberiam teus conselhos sábios.

Fosse o teu pensar o meu pensar
e o teu querer o meu querer
e há muito estariamos a viver
para meu coração amansar.


16-06-2005

Vale a Pena

Não vale a pena mentir
nem vale a pena esconder
de ti todo este sofrer
se perdão te venho pedir.

Não vale a pena o olhar
nem vale a pena o sorriso
que me dás se do meu sizo
continuares a duvidar.

Não vale a pena valer a pena
nem preocupação ou cuidado,
quando se vive apaixonado
qualquer tormenta é leve pena.

Vale a pena valer a pena
por tão bela e formosa Sirena!



16-06-2005

Angola

Pátria perdida
saudade achada
alma ferida
de sangue manchada.

Terra da minha terra
Rios dos meus versos
Mar da minha poesia,
qualquer um te queria
em valores dispersos
em terra de farta terra.

Mãe da planície
Irmã da montanha
savana e arvoredo;

Gente sem medo
em passado de façanha
e futuro que vicie.



16-06-2005

Se Algum Dia...

E se algum dia, por um dia,
de mim tiveres queixume
e nalguma palavra vires azedume
porque feria...

E se algum dia, por um dia,
de mim vires só o meu lado
no todo ou em parte obstinado
porque queria...

E se algum dia, por um dia,
de mim ouvires só a razão
enevoada na incerteza da emoção
porque seria...

Então nesse dia, por todos os dias,
a arrogância e a insensibilidade
desculpa-me pela amizade
que merecias!



16-06-2005

Adeus Mãe

Faz hoje anos que partiste...
Oh!, quanta ternura no momento,
quão dorido foi o meu lamento...
Por entre lágrimas me fugiste.

Ali... inerte... sorridente
a expressão que de ti guardo;
da angústia me resguardo
rezando a Deus clemente.

Falávamos da tua terra
quando em coma viajaste,
e por lá ficaste...

Falávamos da guerra
que te tirou o sonho
para ti o mais risonho!



16-06-2005

Beijo de Iemanjá

Continuarás a ser o meu confidente,
oh! mar, meu amigo do hemisfério norte,
no teu marear joguei a minha sorte
quando de decidir tive de repente.

Aos teus humores me entreguei tão sómente,
vogando na crista sem destino ou norte
balouça-se a alma num fingido desnorte
vendo-se espelhada na mater impenitente.

Refletes no céu plúmbeo e dormente,
oh! mar, a cor da alma que se sente
carregando devaneios sem cais onde aporte.

Vem na névoa das imagens que tens presente
o beijo de Iemanjá para que seja forte,
o cacimbo e o vento da saudade ignifremente!


16-06-2005

Imanente Chama

Quando fores, meu amigo, pelas tuas recordações
e aportares ao sublime grelhado de uma quimaia
e ouvires da cacunda da preta o choro que ensaia
o aviso da fome que se embota nos mandões;

Quando pelo Cunene abaixo fores pelos jacarés
e detrás das bissapas, imóvel, vires o sengue,
recorda-te rápido dos passos de merengue,
rodopia e joga-lhe na fuga a poeira dos teus pés.

Sorri e canta então a lengalenga Cuanhama
que louva os deuses pelos seres e pela natureza
e da fome atira a prece à caça da certeza...

E não receies dizer-nos da imanente chama
que incende a tocha da vida de emoções,
jornadeante do ego, seiva de que te recompões!


16-06-2005